Thorne observava a noite, apoiado no pequeno muro de proteção da balsa. O cenho estava franzido e olhava Flamma sumir lentamente, enquanto seguiam para o porto de Hália (1), a única cidade do reino de Ignis que era independente e aceitava as criaturas sobrenaturais que muitos eram. Visitara-a uma vez com a mãe quando pequeno, lembrava-se das ruas apinhadas de gente. Lobisomens – reconhecidos apenas pelas tatuagens de seus clãs em suas nucas, pescoços ou peitos quando nas formas humanas –, Lupus Lamis e seus Wolves Tutela, Duendes, Gnomos, Fadas, Bruxas, Dragões – reconhecidos pelos olhos com pupilas em fenda e pelas orelhas variadas que indicavam a raça à qual pertenciam –, Vampiros, Ninfas e muitos outros. Elfos eram os poucos que não se encontrava em Hália, era impossível achá-los fora de suas terras. As ninfas eram pouquíssimas que viviam fora do país dos Lobos.
Suspirou, vendo as águas avermelhadas do rio Vie’Branö (2) correrem embaixo da balsa. Era o rio mais longo do Mundo Suspenso e o único em Ignis, nascendo no País dos Lobos e desaguando no mar de Pontos depois do Reino de Aqua (3).
Ergueu o olhar para o céu. Brynhildr (4) brilhava no alto, a estrela mais bela e mais brilhante de todas. Solitária, mas imponente e bela, uma rainha e uma guerreira, assim como nas lendas antigas que contavam os Elfos.
Martha parou ao seu lado, parecia cansada. Quando Thorne chegara, a vampira imediatamente aparecera e levara Sarah para uma das cabines da balsa e se trancara lá com a Lupus Lamis. Algumas gotas de suor frio escorriam pelo rosto pálido. Os lábios estavam firmemente franzidos numa linha fina, séria e desgostosa. As sobrancelhas finas estavam unidas num V profundo, e os olhos olhavam sem ver.
- Como Sarah está? – perguntou, sem saber se devia realmente ter perguntado, mas estava preocupado com a jovem e não pode guardar a pergunta para si. Martha falou lentamente.
- Ela teve muita sorte. Mais um pouco e eu não conseguiria salvá-la. Quase que o Óleo Borealis (5) dos Elfos não fez o veneno sair por si só. Tive que juntar um feitiço de cura para conseguir o efeito. – sua voz era baixa. Estava pensando e claramente preocupada com algo. Ficou um bom tempo calada, pesando as palavras que diria. Na verdade, não conseguira de fato curar a Lupus Lamis. Ainda havia muito veneno na corrente sanguínea da jovem, e era isso que a preocupava. O humano esperou pacientemente. Afinal, Martha falou. – É estranho. Fadas dos Dentes são criaturas que as Fadas criam, são as guardiãs de suas cidades e casas do outro lado do Mar de Pontos; guardam também a cidade dos Gnomos do Oeste. Até onde sei, alguns comerciantes Elfos em Sigrun (6) na Terra dos Elfos compram para extrair seu veneno e enviam para Niveus (7), onde misturando com óleos entre outras coisas se produz o Oxhearth Puteullanus (8), um perfume que apenas a realeza consegue comprar. E em Adriana, no Reino de Aqua, joalheiros as compram para extrair seus dentes e ossos, que apesar de frágeis são valiosos, e usam-nas para complementar suas jóias. Nunca ouvi falar que alguém as comprasse para usar como arma.
Thorne afirmou. Viajara muito pelo Mundo Suspenso, e quando fora para Hália mais recentemente, tirar algumas fotografias nos jardins do castelo, lembrava de ter ouvido algumas Fadas numa loja sombria, cheia de ervas, plantas e animais estranhos na vitrine comentarem com alguns Duendes que alguém em Ignis estava comprando Fadas dos Dentes e que estavam investigando, tentando descobrir quem e por que.
- Agora sei o que aquelas Fadas estavam fazendo. Se as encontrar em Hália, vou lhes dizer. – virou-se, apoiando as costas no pequeno muro e cruzando os braços.
- Como? – Martha disse, não compreendendo, a preocupação substituída pela curiosidade e atenção.
- Há mais ou menos dois meses fui para Hália, tinha algumas fotos para tirar nos jardins do castelo. Ouvi algumas Fadas comentando com Gnomos que alguém em Ignis estava comprando Fadas dos Dentes e que elas tinham vindo de além do Mar de Pontos investigar, descobrir quem e por que estava comprando aquelas criaturas. – Disse suspirando. Jamais pensou que ouvir coisas acidentalmente em Hália pudesse ser tão útil.
Martha balançou a cabeça quase imperceptivelmente, afastando-se, dando uma desculpa qualquer e indo atrás de Ýuuri. Era melhor falar com ele o quanto antes.
O rapaz, aproveitando que todas as criaturas estavam espalhadas pela balsa, conversando, jogando e brincando, e os fantasmas brincando de atravessar coisas, ninguém prestando atenção no único humano da balsa além de quem cuidava de seu funcionamento, achou que talvez fosse uma boa idéia ver como Sarah estava. Martha estava num lugar bem longe da cabine onde deixara a Lupus Lamis, ninguém descobriria.
Atravessou o espaço da balsa, desviando de diversos carros. Andou ocultado pelas sombras rente às cabines, procurando a que Sarah se encontrava.
Encontrou a cabine rapidamente; verificou se não havia ninguém olhando e entrou. Fechou a porta silenciosamente. Sarah estava deitada num catre baixo, Garusa deitado ao lado do catre no chão, as orelhas em pé, atento.
O Wolve Tutela imediatamente levantou-se, olhando desconfiado para Thorne, os lábios erguidos, expondo as afiadas presas. Seu porte maior que o de um lobo comum, demonstrando a benção do Deus-Lobo Senhor dos Ventos sobre os Wolves Tutela. Aquele enorme animal racional, olhando-lhe desconfiado, as presas expostas, fez Thorne engolir em seco, borboletas de medo girando em seu estômago.
- Quem é você? – a voz de Garusa saiu num rosnado desconfiado, já flexionando as patas dianteiras e erguendo as traseiras, num obvio preparar para um salto que com certeza seria espetacular. Isso o fez engolir em seco novamente.
Estava tomando coragem para falar, quando a voz fraca e quase sem forças de Sarah se fez ouvir. O rapaz sentiu um aperto no peito ao ouvir a voz dela daquele jeito.
- Tudo bem Garusa. Eu o conheço. Foi ele que me salvou. – sorriu levemente para o Wolve Tutela, garantindo o que falava. Garusa acalmou-se, mas ainda estava alerta. Algo no cheiro do rapaz não lhe agradava...
Thorne aproximou-se do catre, ajoelhando-se no chão ao lado de onde a jovem estava deitada. Sarah sorriu-lhe estendendo-lhe a mão. Segurou-a sem pensar. Garusa andou para perto da saída da cabine, ficando numa posição estratégica.
- E então, como você está? – perguntou, girando o polegar em movimentos circulares nas costas da mão coberta de pêlos prateados da Lupus Lamis. Nunca tivera um contato direto com a pele da jovem, e não tinha idéia de como era macia, mesmo que coberta de pêlos. Era uma sensação agradável.
Sarah estava precisando se concentrar ao máximo nos músculos de seu sistema respiratório, para que continuassem funcionando e não parassem. As mãos de Thorne, segurando a sua, o movimento circular que o polegar dele realizava nas costas de sua mão, numa tentativa de acalmar seu óbvio nervosismo, apenas lhe deixava mais nervosa.
- Estou bem, viva pelo menos, graças à você. – sorriu levemente, numa falha tentativa de não demonstrar nervosismo. – Você se arriscou pra me salvar, o que ninguém faria, já que... – não pôde completar a frase.
- ... O combinado entre vocês é, quem é capturado, é capturado, e os outros devem se salvar. – Thorne completou a frase, lembrando com raiva de quando Ýuuri dissera que, se ele quisesse salvá-la, iria sozinho. Sua sorte era que não era um fotógrafo vagabundo como outros. Fizera um curso intensivo de tiro, aprendera a manejar habilmente uma espada e a lutar. Fora isso que o ajudara à salvar a Lupus Lamis.
- Exatamente. – abafou uma risada ao perceber a irritação do rapaz. Não esperava uma reação dessas... Se bem que a sua fora bem parecida ao ser introduzida no mundo sobrenatural por Garusa. – Muito obrigada por isso. Devo-te a minha vida. – sua voz exibia a gratidão, quase como se fosse possível enxergar essa gratidão. Seus olhos castanhos e brilhantes também demonstravam o quão agradecida estava.
Thorne sorriu sem jeito, abaixando o olhar, reparando que não soltara a mão de Sarah em momento algum, e que nem tinha vontade de soltar. Mas precisava. Sentia seu inconsciente lhe impulsionando a fazer loucuras.
- Bem, Sarah, recupere-se. Desejo-lhe melhoras. – Soltou lentamente a mão fina e delicada como as patas de uma loba da jovem, beijando suavemente as costas da mão de Sarah, levantando-se.
Garusa saiu de onde estava e voltou para perto do catre. Thorne, antes de fechar a porta da cabine, acenou para Sarah e sorriu-lhe encorajador. A Lupus Lamis devolveu o aceno fracamente junto com um sorriso.
- Não confio nele, Sarah. – Garusa disse, os olhos azuis de lobo brilhando perigosamente. – Não que não seja confiável como quem quer nos enganar, mas pessoas podem ser usadas sem saberem. – disse, erguendo seu olhar para a expressão agora taciturna de sua protegida, o olhar perdido na porta pela qual Thorne acabara de sair. Sua voz exalava a sabedoria de alguém que viveu muito.
- Eu confio nele, Garusa. Algo em seu cheiro também me alerta, sua aparência, sua voz. Ele é atraente, na voz, na aparência, e no cheiro. São características exclusivas de criaturas sobrenaturais predatórias como Vampiros, Lupus Lamis e Lobisomens. Mas ele é humano. Eu estou atenta, Garusa. Não serei pega de surpresa. – seus olhos castanhos ficaram momentaneamente amarelos, brilhando como os de um lobo prestes a caçar, deixando os lábios entreabertos, as presas de vampiro brilhando com a luz fraca da lâmpada da cabine.
- Está com sede, Sarah? – o Wolve Tutela perguntou, a preocupação estampada. Sarah suspirou, os olhos voltando a ficarem amarelos, sem voltarem ao castanho.
- Feri minha cabeça. Muito sangue escorreu. Minha sede despertou, além do fato que sofri muitos danos. Preciso de sangue. – seu tom de voz era triste. Odiava precisar beber sangue.
Garusa suspirou. Sabia bem dos problemas que sua protegida tinha em relação à beber sangue.
- Vou ver o que consigo. – ficou de pé, aproximando-se de Sarah o suficiente para roçar o focinho na testa da Lupus Lamis. A jovem fechou os olhos, aquela carícia tão típica de despedida de professor para aluna lhe trazendo paz.
- Cuide-se. – desejou pouco antes do Wolve Tutela sumir numa nuvem de fumaça. Suspirou cansada, entregando-se ao sono novamente.
XxX
Um bebê chorava. Chorava desesperadamente, sozinho na toca abandonada de um lobo nas pradarias brancas dos vales de Stella (9), iluminado pela Lua, protegido do mal por Länie (10). Seus cabelos rosas e brilhantes, curtos e lisos, com mexas negras, reluziam. Sua pele alva adquiria um tom prata ante a luz de prata líquida da Lua. Braços prateados estenderam-se em sua direção, retirando o bebê, ou melhor, a bebê, de onde estava. O rapaz de longos cabelos azulados, orelhas de lobo prateadas, olhos esbranquiçados, com uma cauda de lobo, sorriu para a bebê docemente, as presas de lobo aparecendo.
- Se acalme, minha pequena, escolhida de minha filha Mïhëan’en (11) para encarná-la. Será você, pequena humana filha de Branö (12), meu irmão, que irá guiar o Mundo Suspenso de volta para a glória de dias passados, hoje contemplados apenas por Ïen (13).
Soprou suavemente no rosto da pequena, transformando tudo em brumas misteriosas. As misteriosas brumas que Länie levanta...
Acordou, arfando, seus olhos amarelos, ativando a visão de calor. Fechou os olhos, respirando fundo, esperando sua visão voltar ao normal. Ainda estava cansada e debilitada, mas não o suficiente para que lhe impedisse de andar, foi o que pensou ao abrir os olhos e sentar-se devagar no catre.
A cabine estava escura. Lá fora também. Não devia faltar muito para amanhecer, já que essa era a hora mais escura da noite. Mesmo com o feitiço de Martha e o Óleo Borealis ainda sentia o veneno correndo em suas veias. Precisava de sangue se quisesse se curar. Mas sabia que Garusa estava com dificuldades de encontrar alguém cujo sangue estivesse saudável o bastante para ela. Era difícil achar pessoas que bebem pouco e não fumam hoje em dia...
Nesse caso, só tinha uma opção.
Levantou do catre tropegamente, indo até a pequena janela que permitia a brisa noturna entrar. Seus ouvidos aguçados lhe contavam que todos estavam dormindo, ou então conversando e jogando. Thorne estava ocupado fotografando a paisagem noturna. Ninguém lhe interromperia. Levou o dedo indicador aos lábios, sentindo suas presas latejarem ante a possibilidade de furarem algumpescoço. Fez um buraco na ponta do dedo e estendeu-o para fora da janela, de forma que o sangue pingasse na água.
- Nui rosïí Randë’en Däi’en Elemë’Nië úë cíä cë dïe’o Däi’Sïe (14). – disse, apertando a ponta do dedo com o polegar, deixando cinco gotas de sangue caírem na água antes de levar a ponta do dedo a boca, lambendo de forma a fechar o ferimento. Não demorou, viu as cinco gotas se juntarem na água, formando algo que lembrava fortemente uma rosa vermelha.
Uma jovem logo se formou da água do rio, acompanhando a velocidade da balsa que subia o Vie’Branö. Os cabelos caíam longos, em ondas, suas feições eram doces e inocentes, o vestido era regata e cobria o corpo suavemente. Mas era apenas uma reprodução em água de uma Däi’Sïe (15) de Randë (16).
- Então é você que deseja falar com minha mestra ou uma de suas Sacerdotisas, uma Filha de Länie? – perguntou, sua voz suave de riacho correndo pela floresta.
- Sim, sou eu. – disse, sua voz sufocada pela dor de sentir o veneno de Fada dos Dentes correndo por si. – Eu preciso da cura que vocês oferecem. – apoiou-se no batente da janela, sentindo sua mente rodar.
- Vejo isso. O veneno de Fada dos Dentes é fatal para Lupus Lamis. Há uma Vampira Curandeira na balsa. Por que ela não a cura? – a Däi’Sïe perguntou, sentindo a consciência da Lupus Lamis se afastar.
- Ela tentou, mas não conseguiu retirar todo o veneno. Nem o Óleo Borealis conseguiu. – sua respiração começou a ficar mais forçada. Sua garganta começava a se fechar. Achou que ia morrer naquele momento, quando sentiu a mão de água da Sacerdotisa-Ninfa apoiar em sua testa, refrescando, e ouviu a voz suave de riacho correndo através da floresta falando-lhe, suave e curadora.
- Nui, Däi’Sïe úë Randë’en, lüé ämn Randë’en, rä’lanë, lanë rëgi däi’üué úë Länie’en (17). – disse suavemente. Sarah sentiu o alívio passar por si, enquanto o veneno saía de seu corpo, rasgando sua pele em pequenos buracos do tamanho do buraco de um alfinete de todos os locais de seu corpo, juntando-se numa pequena bola azulada na outra mão da Sacerdotisa, que surpreendeu-se com a quantidade de veneno. – Essa quantidade devia tê-la matado há muito. Você é resistente. – sorriu docemente, retirando a mão da testa da Lupus Lamis e beijando suavemente o topo da testa. – Aanë, Däi’Üué úë Länie’en (18). – pronunciou suavemente, afastando-se e começando a se derramar de volta para o rio.
- Aanë, Däi’Sië (19). – pronunciou por entre os lábios sofregamente, falhando em sorrir, deixando-se cair de joelhos no chão frio de madeira da cabine quando a Sacerdotisa desapareceu, transformando-se em água novamente. Sentia-se esgotada. Os pequenos orifícios espalhados por seu corpo estavam avermelhados, fechando-se, sem sangrarem mais que uma pequena fração de uma gota, perdendo-se na pelagem espessa e prateada que lhe cobria o corpo.
Respirou fundo, soltando o ar lentamente. Não fosse ter acordado de súbito com o sonho e chamado a Däi’Sië de Randë’en, teria morrido dormindo.
Tomou fôlego, levantando-se escorando na parede e indo para o catre, deixando-se cair pesadamente na única coisa parecida com uma cama. Adormeceu instantaneamente, pensando que Garusa precisava chegar o quanto antes com sangue para repor o que havia perdido.
XxXFotografava o rio, suas águas escuras refletindo a Lua avermelhada que brilhava lá no alto. Era um espetáculo que nunca presenciara em sua vida. Estavam cada vez mais próximos de Hália. Estariam atracando no porto da cidade ao meio-dia. Torcia para que até lá Sarah já tivesse se recuperado.
Estava focalizando sua câmera para tirar uma foto das escuras silhuetas das montanhas da Cordillera na margem Oeste. Uma silhueta escura contra o céu enegrecido, as estrelas desaparecendo. Subindo o rio de Flamma até Hália não havia outras cidades nas margens, de um lado ou de outro; a falta de luzes nas margens ou silhuetas, sinais de vida, humana ou não, trazia uma sensação de abandono e solidão. Era algo até que bom, deixava intocado os campos de Ignis.
Foi então que, pelo céu enegrecido, uma silhueta escura, com pontos brilhantes como se pequenos cristais refletindo a luz. A silhueta lhe lembrava uma carruagem, passando numa velocidade média, puxada não por cavalos, mas por unicórnios – sabia devido à silhueta dos chifres nas cabeças. Lembrava-se bem de uma das lendas contadas para as crianças, uma das lendas universais do Mundo Suspenso. A lenda que falava do Inverno, como ele chegava e como partia.
A língua dos Lobos a chamava de Elemë’Mïen Randë’Ráë (20), uma Elfa filha de Miën (21) que ia e vinha em sua carruagem feita de gelo, coberta de diamantes e puxada por Unicórnios, levando a frentes frias e as nuvens que derrubavam sua neve. Diziam que seus cabelos eram da cor da neve, seus olhos azul-gelo, claros como a água, sua pele alva e fria, seus lábios azulados. Diziam ser incrivelmente bela, e que em noites de Lua Vermelha e frio intenso, era possível avistar sua carruagem puxada por Unicórnios correndo os céus.
Deixou a câmera pender em seu pescoço, sustentada pela faixa de tecido que usava como um colar. Ficou admirando o céu, até que este começou a clarear, o sol nascendo por cima da Cordillera. Era um belo espetáculo. Não demorou, começou a fotografar a cena.
XxXObservava atentamente a Cordillera pela janela da carruagem, seus olhos azul-gelo refletindo a Lua Vermelha que brilhava no céu escuro, mas ainda assim ouvindo atentamente as palavras do Wolve Tutela que estava deitado no chão de gelo da carruagem.
- Vai presenciar os Festivais dos Dias dessa Década, não vai, Randë’Ráë (22)? – perguntou, sua cabeça pendendo levemente para o lado, observando as reações do rosto de pedra da Elfa. – Você não os presencia há quase cem décadas... – deu um leve bufo de desagrado. A Elfa ainda não demonstrara sentimentos. Sua voz saiu fria e sem sentimento algum por entre os lábios azulados.
- Irei sim Garusa. A profecia já começou a se cumprir. Mas ela precisa estar lá, para que eu dê minha benção à ela. Cabe a você cuidar para que ela esteja presente nos Festivais dos Dias dessa década. Era apenas isso? – sua face continuava inexpressiva.
- Sim. – limitou-se a falar, levantando-se. – Aanë, Elemë’Miën (23). – despediu-se, sumindo em meio à fumaça.
- Aanë,Garusa. – permitiu-se sorrir levemente quando o Wolve Tutela desapareceu.
XxXAcordou sentindo um cheiro adocicado, selvagem e atraente. Seus olhos castanhos ficaram imediatamente amarelos ao abri-los, encontrando Garusa deitado no chão, algumas bolsas de sangue que via no Curator ex Valetudo no chão perto do catre. Sentou no catre, estendendo a mão e pegando uma das bolsas de sangue. Com suas garras, abriu um buraco, começando a beber o sangue. O contato do sangue com seu estômago foi quase violento, demonstrando o quanto estava necessitada. Permitiu-se suspirar enquanto terminava com o sangue daquela bolsa, pegando outra. Estava sedenta de sangue, a sede desperta há muito, apenas agora sendo suprida. Já sentia seu corpo recuperando-se do cansaço excessivo ocorrido em função do veneno que não muito tempo atrás corria em suas veias. Terminou com a segunda bolsa de sangue, estendendo a mão para pegar a terceira, quando ponderou. A sede já não a atormentava, e não sabia quando conseguiriam mais. Guardaria aquelas para quando fosse necessário.
- Guarde estas, Garusa. É melhor termos reservas de emergência.
O Wolve Tutela sorriu para a protegida, orgulhoso por ela ainda conseguir raciocinar.
- Tome mais uma. Você precisa de energia. Vou guardar as demais quando chegarmos em Hália. O que não deve demorar muito... – disse com um tom gentil, empurrando mais uma bolsa de sangue para a Lupus Lamis, fazendo as outras desaparecerem. Sarah não tardou em começar a beber o sangue daquela bolsa.
- Quanto até chegarmos em Hália? – perguntou quando terminou de beber o sangue.
- Já chegamos, na verdade. Estamos apenas atracando no porto. Consegui algumas roupas suas que ficaram em Flamma. É melhor se trocar. Espero você lá fora. – disse, saindo pela porta aberta da cabine, que fechou-se atrás de si.
Sarah fitou por alguns segundos a porta fechada, suspirando cansada. Levantou-se, já se sentindo muito melhor. Olhou-se, reparando que realmente devia trocar de roupa e, num futuro não muito distante, tomar um bom banho. Seu pêlo estava sujo, e as roupas, rasgadas e manchadas de sangue seco e pó de forma irrecuperável. Procurou as roupas que Garusa dissera ter trazido, encontrando-as numa mala esportiva num canto da cabine.
Jogou a calça, a capa e a camiseta num canto. As queimaria depois. Vestiu uma camiseta regata vermelho-vinho de costas nuas e decote em V cavado, mangas vermelho-claro prendendo com broches na altura dos ombros, de forma a deixar os ombros à mostra, um corpete por cima da camiseta um pouco folgada e um mini-short jeans vermelho com uma espécie de bracelete em torno das coxas de prata e trocou as botas cano alto por botas cano médio marrons de couro, sem salto, dobradas pra fora, cortadas na frente, os lados unidos por um cordão de couro de forma larga, dando um visual antigo à jovem. Completou com um cinto preto de ferro pintado de negro com um W no centro em branco e com o medalhão escrito Wolf costumava usar. Procurou atentamente na mala esportiva, encontrando sua pistola manual com tambor para oito balas. Sorriu levemente, colocando a pistola com a trava de segurança atrás, presa no cinto e no cós do short.
Pendurou a mala esportiva nas costas, saindo da cabine.
XxXO operador da balsa, com a ajuda de diversas criaturas, atracou a balsa no porto. Sarah caminhou ao lado de Garusa para terra firme, e não demorou para Thorne se juntar aos dois. O rapaz parecia preocupado com Sarah.
- Como se sente, Sarah? – perguntou, acompanhando o passo calmo mas rápido de ambos.
- Bem melhor depois de uma longa noite de sono. – e de consultar uma Däi’Sië de Randë e beber três bolsas de sangue, acrescentou mentalmente. Não que o rapaz precisasse saber...
Thorne sorriu-lhe, feliz com a notícia. Virou então seu olhar para a cidade. Hália era magnífica. Irradiava poder. Era cercada de altos e grossos muros, de um tom suave de azul, desenhos antigos pintados em cores vibrantes, retratando a história do Mundo Suspenso. As cores gerais das construções da cidade eram o azul, o anil, o turquesa , o azul-céu e o azul-marinho. O Palácio, no centro da cidade, se destacando entre prédios e outras construções, reluzia à luz do sol do meio-dia, as paredes de pedra recobertas por cristal. Sarah deixou os lábios se desprenderem, incrédula. Já viajara muito e já viajara pouco, conhecera muitos lugares e não conhecera nenhum lugar, pois o mundo era enorme. E de todos os luares que já conhecera, em toda a sua vida, jamais vira um local como Hália.
- Pelo Guïré (24)! – deixou escapar, sentindo um olhar dardejante e reprovador de Garusa. Falara algo que não devia na presença de um humano. Lançou um olhar culpado para o Wolve Tutela, que suspirou derrotado. A conhecia bem para saber que não era culpa dela.
- O que disse? – perguntou, não conhecia o sentido do que ela falara.
- Nada. Você vai me levar para conhecer Hália, não vai?! – perguntou, animada.
- Claro. – mal falou, a jovem lhe enlaçou pelo braço, arrastando-o para a frente, fazendo mil perguntas. Garusa sorriu levemente, seguindo atrás dos dois e balançando a cabeça. Sarah sabia disfarçar bem.
Notas:
1 Nome grego, Filha do Mar e da Terra.
2 Vermelho na língua dos lobos que eu criei. O prefixo Vie' significa cor, Branö signifca fogo, então seria "Cor de Fogo".
3 Água em latim.
4 Uma das Valkírias na Mitologia Nórdica. Significa Correspondente de Batalha.
5 Boreal.
6 Outra das Valkírias. Significa Runa da Vitória.
7 Branco em Latim.
8 Rubi Azul em Latim.
9 Estrela em Latim.
10 Rei dos Ventos, Deus-Lobo, criador dos Lobos, dos Lupus Lamis, dos Wolves Tutela, dos Lobisomens e dos Sonhos, rei dos demais deuses, deus da Paz. O nome significa Vento.
11 Justiça na língua dos Lobos. O sufixo 'en, adicionado ao final de um nome, indica a posição de divindade. Então, Justiça seria uma entidade e não um conceito.
12 Rei do Fogo, Deus-Vampiro, criador dos Humanos, Serpentes e Vampiros, protetor dos guerreiros, deus da Guerra, irmão de Länie.
13 Rei do Sol, Deus-Dia, criador das Águias e suas ramificações, pai das Estrelas, guardião e observador do passado. O nome significa Sol.
14 Eu chamo Randë Deusa Ninfa ou uma de suas Sacerdotisas na Língua dos Lobos.
15 Sacerdotisa na língua dos lobos.
16 Rainha da Água, Deusa-Ninfa, criadora dos Dragões, das Ninfas, das Fadas e habitantes do mar, aliada dos Lobos, protetora dos sentimentos, estando sujeita à eles e influenciando o mar de Pontos, esposa de Branö. O nome significa Água.
17 Eu, Sacertotisa de Randë, peço que Randë, Curadora, cure esta Filha de Lanië na Língua dos Lobos.
18 Adeus, Filha de Länie, na língua dos Lobos.
19 Adeus, Sacerdotisa, na Língua dos Lobos.
20 Inverno na língua dos lobos, mas no sentido literal ficaria "Estação do Gelo".
21 Rainha da Terra e tudo que nela reside, a Deusa-mãe, criadora dos Elfos, dos Anões, dos Duendes e dos animais, Esposa de Länie. O nome significa Terra na língua dos Lobos.
22 Gelo na Língua dos Lobos.
23 Adeus, Estação, na Língua dos Lobos.
24 Guardião na Língua dos Lobos.